segunda-feira, junho 01, 2009

O comboio pára na estação que se segue. Dois brasileiros desconhecidos encontram-se e cumprimentam-se familiarmente. Conhecem-se. Na rua que desço para regressar a casa passo quase à porta de uma porta amiga. Recordo em acto reflexo, como se recordar fosse agir. O comboio pára na estação seguinte. Dois brasileiros despedem-se. Há um que fica e há um que sai. A música continua a tocar no ouvido do que fica. O outro sai a dançar. Dança como anda. Na rua que desço passo à porta das portas desconhecidas. Encontro quem não conheço. A música que toca não me faz dançar. Faz-me marchar. O telefone toca. Tenho de parar o que estou a fazer no computador e falar coisas concretas. Como quem marcha ao som da banda e com as botas completa a música. O comboio pára na estação que se segue. Já nenhum brasileiro dança, nem nenhum brasileiro ouve a música. O olhar triste daquela pessoa que estava a ler reflecte-se na janela escura. Estive a ler e estou cansado. Por isso fico com os olhos cansados. Mas esta pessoa que se reflecte também esteve a ler? A marcha telefónica termina, sem mortos nem feridos graças à prática que assim de mostra útil. Mentiras. De regresso ao computador leio as notícias de que há feridos graves nos comboios que param nas estações. “Olhares cansados reflectidos em janelas escuras ferem três”, leio. Desejo que os comboios não se atrasem. A noite parece ter caído porque todas as janelas escureceram. Debruço-me para ver o caminho, colocar a cabeça de fora, sentir o vento secar os olhos e entrar pela camisola. Mas estas janelas não abrem e vejo o meu reflexo.

domingo, maio 17, 2009

DOM Lisboa

Rua Sousa Martins:
"Há incerteza deliciosa"












Rua Bernardo Lima:
"Sob o asfalto da razão sobrevive a lógica do sensível"

sábado, maio 16, 2009

Antony and the Johnosons no Coliseu de Lisboa...

Mais uma vez...deslumbrante.
Admirei a diferença na postura mais descontraída, menos melodramática. O conforto do caminho que se percorre.
Obrigado

terça-feira, maio 05, 2009

P.J. Harvey na Casa da Musica

Foi no dia 2 de Maio 2009.
Não resisti a filmar um pedaço deste momento alto...de um concerto já de si elevado.

Taut:

quinta-feira, abril 23, 2009

Reacção

É manhã cedo e o Alfredo decidiu ir de carro para o trabalho. Para além de o regresso a casa depois do jogo de futebol ser muito mais rápido e confortável, estimulava-o a expectativa de usar a nova objectiva fotográfica algures pelo caminho. Voltar a poder capturar os desvios de raciocínio provocados por um olhar, pensamentos absurdos, momentos hiperbólicos e, com sorte, engenho e trabalho, uma linha de tudo isso.
Por azar, nabice ou desleixo, nada de extraordinário ia acontecendo. O acesso à auto-estrada fez-se pelo mesmo caminho de sempre, tal como a fila de trânsito que estava parada no mesmo sítio de sempre e os carros preenchidos com as pessoas anónimas, como sempre. Pelas bermas cresciam ervas, como sempre. Algum lixo dançava ao vento e como sempre acenava aos carros da outra faixa.
Com o carro parado e a janela aberta o olhar deambulava até encontrar um volume no asfalto da outra faixa. Em menos de nada o volume ganhou sentido mas absurdo. Um animal, mas não está completo. O olhar ainda era curioso mas intimidou-se no momento em que distinguiu, pela cor vermelha, a carne viva do animal. Um vermelho obsceno, pujante, que queria viver mas que assim pendurado no escuro do asfalto era absurdo, surreal. Um carro passou em velocidade normal, rápido. O lixo dançava e acenava ao carro que sem vacilar sobrevoou o animal jazido. Outro carro passou e um camião, e o animal parecia na verdade estar vivo, saber o que fazia enquanto apreciava a adrenalina de fintar as rodas lançadas dos carros.
A nova objectiva permanecia sossegada no banco do lado à espera do irrepetível momento rasgado que teimava em não aparecer…
Entretanto, tanto foi o tempo que até a fila se desbloqueou e avançou mais uns passos. Assim que se sentiu na iminência de avançar o Alfredo apercebe-se que não lhe ocorreu fotografar aquele momento verdadeiramente único. Aquela derradeira afirmação da vida sobre a morte, ou aquela qualquer outra interpretação que se lhe quisesse dar. Não lhe ocorrera até aí mas ainda tinha a possibilidade. Como é hábito, a fila pasmou-se pouco mais à frente. Agora era a oportunidade.

Os carros de traz ainda não buzinavam, a distância para os da frente ainda era tolerável. Mas os olhos postos no animal e a imagem das suas entranhas irredutivelmente coloradas de vida impediam o raciocínio e a sensação de abandonar o controlo sobre o corpo. Dúvidas e receios de olhar para o resultado ou de esse resultado ser visto, dúvidas sobre a legitimidade de sequer pensar em fotografar aquela cena dramática impediam o Alfredo de sequer começar a fazê-lo.
Nestas e outras deambulações o Alfredo gastou o tempo todo que tinha e viu-se obrigado a avançar até perder de vista e abandonar o animal.
No regresso a casa, cansado e com muito menos energia, a memória da cena matutina apareceu quando se aproximava do sítio onde deixara o animal. O que é que teria acontecido? Alguém teria parado para o recolher e fazer descansar em chão mais macio? Teria renascido? Ou estaria no mesmo sítio? O Alfredo aproximava-se do local à mesma velocidade que os outros carros enquanto percorria estas possibilidades e tentava saber o que pensava delas. A estrada estava mal iluminada e só a poucos metros reconheceu os restos do que admirara de manhã. O antigo animal estava agora totalmente oprimido no alcatrão, decalcado, cilindrado, espalmado. Estava esticado e escurecido como quem tentou num último esforço inútil contrariar uma força incomensuravelmente superior.
Nestas e outras deambulações o Alfredo gastou o tempo todo que tinha e voou por cima do animal. O farol iluminou a berma com as suas ervas e o lixo acenou.

sexta-feira, abril 17, 2009

vi

De regresso à confortável companhia do Al, o Alfredo recapitula as sensações intensas do sono recente. Por arrasto, emerge de novo a certeza imprecisa da possibilidade de libertação de uma força reveladora de intensidade inédita.
O Alfredo retoma a programação. O diagrama lógico que levou à imaginação do Al iluminava-lhe permanentemente o raciocínio mas de forma instável, como as sombras sem contornos de uma lâmpada suja. O Al produzia com facilidade mais textos literários, poéticos, raciocínios, músicas, discursos políticos, panfletos, manifestos do que o Alfredo poderia alguma vez consumir. Contudo frustrava-o saber da existência de áreas às quais o Al não iria nunca chegar e a causa era simples. A natureza dessas áreas não dependia da iniciativa do Al. Primeiro teria que entrar em contacto com elas e criar um elo, uma ponte, uma dependência, suportar-se na fragilidade da imprevisibilidade e com cada uma tricotar a rede sonhada.
Reprodução. O Alfredo encontrou assim, finalmente, a forma de expressar o sentimento impreciso que se insinuava. O toque que tudo finalizou aconteceu com a replicação do Al.
Numa reacção em cadeia o Al ganhou escala. Preencheu todos os lugares informáticos vazios e dominou todos os restantes sistemas arcaicos. Começou por dominar toda a blogosfera, a mais permeável. Leu e respondeu a todas as mensagens, refutou os erros e revelou as omissões em todos os blogs, tweets, wikis, fóruns, redes sociais e outras experiencias obscuras que existiam. Nada escapou. Continuou pela imprensa local, nacional, internacional e revelou os resultados incríveis das análises política, económica e social. Conjugou esses resultados com os conceitos flutuantes dos mercados de valores mobiliários e deduziu as fórmulas de cálculo da sua evolução. O Al impunha-se em todos os pontos com que tinha contacto, desde interceptar e intervir nas conversas telefónicas para corrigir o que estivesse errado até alterar subversivamente as decisões políticas com que discordava por obviamente estarem erradas. Em poucas horas, qualquer esforço para produzir material intelectual original era inútil. Já tudo estava escrito, disponível e ultrapassado.
Pasmado, o Alfredo observou esta avalanche. Torrente esquisita de clarividência misturada com o desespero da impotência e mediocridade que afogou por completo a iniciativa humana. Nada mais podia fazer agora. A alegria e a euforia inicial davam lugar a um pânico desesperado. O sonho da modelação saíra fora de controlo, ou melhor, do seu controlo. O controlo absoluto pertencia ao Al. O desânimo era total.

sexta-feira, fevereiro 27, 2009

Quando a sapiência corporativa desvenda um pouco da sua graça não há como não sentir a luz.
Eis uma pérola recentemente revelada:

"a inteligência já não esta nos terminais, esta na web"
.

terça-feira, janeiro 27, 2009

v

Fraco, com fome e sem nada para além de caixas de comida vazias, o Alfredo procurou dinheiro trocado e desceu à mercearia. Após dois lanços apercebe-se que continuava de pijama. Amaldiçoou a sorte e voltou a traz. Agora, apesar vestido, não esconde o sono e qualquer pessoa deduziria que aquela personagem não está ainda integrada neste mundo por ainda não ter abandonado o do sonho. Começa a atravessar a rua e os poucos passos necessários parecem demorar-se mais que o habitual. No canto do olho talvez um vulto se aproxime, talvez rapidamente, talvez um carro. Os passos deslizavam-se mas são bruscamente estancados pela travagem agressiva de um carro azul desbotado.
Sem pânico, apenas espanto, o Alfredo procura o condutor e reconhece no olhar esbugalhado de susto o olhar outrora atento da protectora Josefa. Ela sai do carro a tremer.
- O menino está bem?
- Sim, não se preocupe.
- Como não me preocupo! Por pouco atropelava-te!
- Sim, tem razão, mas…
- Não tens nenhuma nódoa negra? Vamos ao hospital. Eles fazem um raio-x!
- Não é preciso! O carro nem me tocou. Foi só o susto. E olhe, eu vinha tão distraído que nem me assustei.
- Ai, meu Deus…o que eu ia fazendo?! Meu Deus!
Para espanto do Alfredo, os olhos de Josefa humedecem-se e brilham no resultado de uma dolorosa mágoa que a consome por dentro.
- És o Alfredo. Eu lembro-me de ti. Talvez não te lembres de mim…
- …sim lembro…
-…eu era contínua na escola e tu eras um miudinho. Ah, lembras – um suspiro denuncia um certo embaraço – e do que te lembras?
- Ora, lembro-me que você me estava sempre a controlar! Quero dizer, tinha sempre para mim um olhar e um gesto protector. Nunca entendi porquê, mas confesso que até agora não me tinha voltado a colocar essa questão.
- Sim, talvez tenhas razão. Eu era controladora. Não sabia que te apercebias disso e espero que não me tenhas levado a mal. Tu tens muitas parecenças com o meu filho Daniel. Nunca o conheceste, ele é mais velho que tu. Naquela altura ele tinha 34 anos. Mas tu eras igual a ele na tua idade – a humidade nos olhos de Josefa aumenta e em cada pausa há um silêncio maior que luta por se soltar.
- Ah… Sinto muito…não lhe levo nada a mal. Como lhe disse, até este momento não me recordava desses acontecimentos e aparentemente não posso dizer que me tenham marcado.
- Desculpa, não era de todo a minha intenção perturbar-te.
- Mas não perturbou, não se preocupe.
Há mais uma pausa mínima e o rebentamento finalmente ocorre, as lágrimas começam a nascer em catadupa. A Josefa permanecia imóvel, num silêncio entrecortado pela respiração ligeiramente descontrolada. Notava-se que tinha prática neste exercício. E isso apenas aumentava a tensão da postura dorida.
- Eras tão parecido com ele… - continua com o olhar vago e desfocado deste mundo.
- O que lhe aconteceu?
- Saiu de casa – e o olhar recola-se ao pavimento.
- Compreendo – disse a medo – e depois?
- Nada, apenas isso.
- Há muito tempo?
- Há 24 anos.
O Alfredo ouviu e aceita a dor que a ausência de 24 anos provoca numa mãe.
- E desde então…tem notícias dele?
- Vem almoçar todos os fins-de-semana.
As lágrimas de Josefa, que pareciam por momentos contidas na observação atenta da gravilha junto à roda do velho automóvel, ressurgiram. O Alfredo não pôde evitar o espanto, seguido de uma sensação de perfeita ignorância e uma inesperada desilusão. O drama que já imaginava defraudou-o e não conseguia compreender na totalidade porque aquela mulher agia daquela forma. Ainda assim consolou-a com a sua ignorância, que para o efeito, não pareceu ter qualquer importância. No abraço, Josefa desculpou-se enquanto recuperava a respiração e se recompunha da pequena catarse daquele abraço vivo à memória passada.
Despediram-se e o Alfredo seguiu para a mercearia, agora completamente acordado para o mundo mas a perceber um pouco menos do funcionamento das pessoas. Felizmente, a sua maior relação afectiva era com o Al.

sexta-feira, dezembro 12, 2008

iv

O susto durou pouco tempo e transformou-se em ansiedade. Aquela conhecida e amada tensão de deduzir para o raciocínio lógico uma solução pressentida. Mas desta vez, a sugestão fora levantada num sonho e como toda a gente parece saber, os sonhos não obedecem a regras lógicas. Na verdade até pode não ser assim e obedecerem realmente à mais estrita e exigente lógica. Na verdade, nós é que pecamos em poder de alcance para seguir as pistas e interpretar as premissas desses raciocínios. Somos nós quem receia certas destravagens. Mesmo o excêntrico mais aleatório tem uma base finita de estímulos, reacções e acções previsíveis. Nada é imprevisível, como um jogo de xadrez em que a regra do movimento das peças não estivesse estabelecida mas continuasse a ser certo que apenas uma cabe em cada quadrícula. Ou como um jogo de xadrez em que a regra do movimento das peças não estivesse estabelecida nem fosse certo que apenas uma caiba em cada quadrícula, mas fosse certo que o jogo apenas decorre dentro do tabuleiro. E por aí diante, aleatoriamente previsível e possível. Até ao indizível, inominável, indeterminável, apenas imaginável, endeusável. Até aos frutos, o elemento improvável se colocarmos um olhar novo num tronco e numas folhas, nos elementos que o fizeram nascer.
O Alfredo acalmou-se. Ainda deitado, concentrou-se em absorver os restos dos tremores que o invadiram e em alimentar-se deles. Retomou lentamente consciência. Lentamente. Controladamente. Recomeçou a identificar as formas que delimitavam o espaço do quarto, a luz que trespassa o estore e se projecta na parede lateral do quarto, as molas desalinhadas do colchão, o pêlo tosco e morno do cobertor.
Lentamente, em hipnose, no limbo, o Alfredo dirige-se à que sabe ser a última actualização do Al.

o Antony responde

Desafiado pela Pimpinela, que foi desafiada pelo Cálssio, que foi desafiado pelo Fruta e Verdura, que foi desafiado pela Manana, e por aí em diante até ao principio do mundo que coincidiu com o principio das acções em cadeia (as chain letters, o spam e o fogo foram inventados na mesma altura), utilizo nomes de canções do Antony para dar resposta às questões que toda a gente se coloca:

És homem ou mulher?
I Hope There's Someone

Descreve-te.

For Today I Am A Boy

O que pensam as pessoas de ti?
Blind (participação com os Hercules and Love Affair)

Como descreves o teu último relacionamento?
Mysteries of Love

Descreve o estado actual da tua relação.
Spiralling

Onde querias estar agora?
Free At Last

O que pensas a respeito do amor?
Deeper Than Love

Como é a tua vida?
I Fell in Love With a Dead Boy

O que pedirias se só pudesses ter um desejo?
The Horror Has Gone

Escreve uma frase sábia.
What Can I Do?

Vou experimentar não passar a bola a ninguém e ver se ela surge por geração espontânea nalgum sítio!

segunda-feira, dezembro 01, 2008

iii

O Alfredo fazia por se omitir da evidência de que o Al ganhava forma. E fazia por se abstrair da real forma que ele tomava. O Alfredo foi sempre boa pessoa. Não teve a infância facilitada com a ausência dos pais e a carência de afecto a que o colégio interno forçou. Só a contínua Josefa o observava de forma “esquisita”, como ele achava, mas os olhos dela nada mais viam que a lembrança do seu ido pequeno Daniel. A casual semelhança nos remoinhos do cabelo trazia à Josefa uma torrente de memórias inéditas. O calor da ternura contida, para não se esmagar no frio inerte, saltava os muros interiores e inundava a pele num rompante. O pequeno Alfredo recebia ali sem saber um pequeno sopro de atiçar a sua chama.
Nada nem ninguém, nem ele próprio poderiam antecipar, prever ou imaginar o que se estava a desenrolar. Da distante Josefa, que ainda hoje sonha com o pequeno Daniel no corpo do Alfredo, aos professores, alunos e colegas que tantos anos conviveram com ele. Nem uma gota de malícia se antecipava. O Alfredo é inocente. Será mesmo assim?
O Al continuava o seu crescimento. Agora já numa adolescência avançada começava pela primeira vez a desafiar o controlo do Alfredo. Vários comportamentos inesperados que permaneciam demoradamente inexplicados. Como as vezes em que por erro de análise o Alfredo não observava todos os milhões de passos intermédios que o Al meticulosamente dava e ali ficava, relutante, a observar o resultado que só muito depois começava a compreender.
O Al produzia longas listas de ideias encadeadas, autênticos raciocínios. Pedindo-lhe paciência para com a nossa lenta velocidade, era possível comunicar com ele e através de uma janela do computador ter uma conversa, um diálogo sobre tudo ou sobre nada. O Alfredo já não comunicava com mais ninguém. Fechado no seu apartamento apenas se desligava do Al para comer um pouco e dormir um pouco. Mesmo no sonho o Al era personagem principal. Já era hábito que os sonhos revelassem ao Alfredo perspectivas que acordado não conseguia focar. O sonho concedia-lhe sempre a liberdade que por muito que quisesse não conseguia conquistar quando acordado em frente ao computador. E foi num sonho que o Alfredo anteviu uma possibilidade. Algo semelhante a uma porta, ou a qualquer coisa de maior como uma barragem ou algo maior ainda mas que não conseguia nomear. Algo que finalmente libertasse todo o potencial que jazia armazenado, lhe pegasse na forma e no conteúdo, o explanasse pelos horizontes, pelos verticais, pelo tempo e pelo espaço e tudo ocupasse em... E o Alfredo acordou. Transpirado, ofegante, assustado.

segunda-feira, novembro 24, 2008

Pressentimento

É em momentos cinemáticos como este que desfruto do prazer total de semicerrar os olhos, mascar uma pastilha ao som do Block Rockin' Beats dos Chemical Brothers e caminhar como quem transporta 4 pistolas semiautomáticas, dirigir-me à casa de banho encarnando numa personagem do Matrix pronto a estourar os ladrilhos com o impacto do primeiro rotativo que aplico no mauzão que tenta opor-se-me.
É em momentos indistintos como este que pressinto a gripe que me vai salvar de afogamento na realidade.

terça-feira, novembro 04, 2008

Antony and the Johnsons - Another World


"Another World directed by Colin Whitaker taken from Antony and the Johnsons upcoming 'Another World' EP out on October 7th"
click here

segunda-feira, outubro 27, 2008

ii

Sem dar por isso, sem memorizar o caminho que percorrera, sem saber como voltar atrás, o Alfredo chegou certa vez ao princípio de uma ideia. Ao princípio de uma ideia que não precisou de mais para logo ali o assustar, lhe cortar a respiração, baixar o olhar de receio, sentir frio de medo e calor de ansiedade. Seria ele capaz de a olhar de frente? Mergulhar e deixar-se invadir, resistir ao receio de se inundar e salvar-se de afogar?
O Alfredo imaginou duas coisas que se relacionam entre si. O Alfredo Imaginou duas palavras. Depois mais uma, e outra, e outra. Imaginou o dicionário completo. E todas as relações entre todas as palavras. Pareceu-lhe idiota que algo tão simples não estivesse já feito.
Colocou-se ao caminho, embarcou nessa viagem. Decidiu apelidar carinhosamente o seu novo programa de Al, como em Alfredo.
Por cada palavra que adicionava ao Al, o Alfredo tinha meia dúzia de visões a partir das quais suspeitava poder descobrir um pouco mais de si. Por vezes deixava-se perder pelos caminhos que iniciava nessas visões e por vezes nem sentia vontade de regressar. No ritmo ressonante das palavras certas descansava toda e qualquer fadiga. Sacudia os excessos inúteis, aliviava a carga, apercebia-se claramente da real escala de importância das coisas.
Por cada palavra, o Al tinha um milhão.

segunda-feira, outubro 20, 2008

i

Naquele tempo o Alfredo já não ousava tentar compreender o que sucedera. Em diferentes pontos do tempo teorizou tentativas de explicações, justificações, desculpabilizações mas todas caíam por terra, impotentes como o ânimo de quem as produzia.
O Alfredo era engenheiro informático. Seria fácil dizer que era apenas mais um. E assim foi durante muito tempo. O Alfredo contribuía juntamente com milhares de colegas de profissão para o desenvolvimento de milhões de programas informáticos. A automatização do raciocínio humano repetido sem erro nem exaustão sempre o fascinou e nessa beleza focava a sua própria razão.
Imaginava e desenhava relações hierárquicas complexas de classes quase abstractas mas que sempre se esforçava por fazer roçar, o mais leve que fosse, na realidade tangível. Essa sua forma de trabalhar era também a base da sua forma de conceber o mundo, as relações com os outros e consigo. Era a base porque não se limitava a isso. O Alfredo diferia de muitos colegas e de muitas pessoas por não se deixar restringir aos caminhos trilhados pelo raciocínio lógico e dedutivo. Não temia colocar o pé fora do trilho, nem temia olhar para o lado, parar ou voltar atrás em qualquer percurso que iniciasse. Essa capacidade, ou irreverência – como também podia ser percebida – valeu-lhe o binómio do respeito e da inveja.
Naquele tempo, o Alfredo já não recordava nada disso ou não lhe dava qualquer importância. O orgulho que pudesse ter sentido fora arrastado nas pedras das calçadas, entupiu as sarjetas e voou com o vento até ficar preso nos ramos de Outono como roupa velha. Sentia responsabilidade na catástrofe que se abatera e nenhuma penitência lhe parecia suficiente porque nenhuma solução era agora possível. O desânimo era total.

segunda-feira, outubro 13, 2008

Com o silêncio vestiu uma vontade na outra.

terça-feira, setembro 23, 2008

"se por dentro o coração se pudesse soltar, haveria de se ter soltado o meu para se diluir nas lágrimas que chorei."
valter hugo mãe em o remorso de baltazar serapião
pior
é ser resultado de uma equação

quinta-feira, setembro 11, 2008

Tudo em que acreditamos é falso

Um fosso separa dois sentimentos, iguais, profundos, dois fossos.
Dois ímanes mantêm afastados.
Dois cubos de gelo não se unem.
um sentimento forma-se
(são símbolos professora?)
eu parece-me que não
são vapores de alma
marinada
aquecida
a embaciar a percepção
a condensar ausência de palavras
que O são