domingo, janeiro 06, 2008

Homenagem

Mecenas da periférica arte do olhar forte, fixo, aberto, seco.
Obrigadinho.

quinta-feira, dezembro 27, 2007

Pólis

Depois das obras veio uma rotunda nova, grande e com semáforos. Os Homens gostaram tanto da rotunda que passavam horas à sua volta, de carro, camuflados pelo trânsito.

domingo, dezembro 09, 2007

terça-feira, novembro 20, 2007

Não encontrei as palavras...














E também a pontuação do sobe-e-desce na transparência erótica-voyeur da celulose.

segunda-feira, novembro 19, 2007

|1/x|




A realidade derrete-se....finalmente

“Toda a amargura retardada da minha vida despe, aos meus olhos sem sensação, o traje da alegria natural de que usa nos acasos prolongados de todos os dias.”
Bernando Soares
Ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa

quinta-feira, novembro 15, 2007

Tremor

Por dentro um tremor
ribomba
enjoa, angustia
enregela e paralisa
tão próximo do vómito.
Por dentro um tremor
ressonância que atropela em fuga
e ecoa no vazio oco
nem silêncio nem bulício
tocam a implosão que mastiga
no vácuo que se cria
na poeira que assenta que seca
o olhar entupido
rasteiro, tropeçante
a palma da mão fria
fechada, suada, medrosa
a angústia céptica egocêntrica de um monte desabituado
desabitado pelo calor.

domingo, novembro 04, 2007

segunda-feira, outubro 15, 2007

domingo, setembro 16, 2007

A luz afasta-se e deixa-te só de olhos abertos no escuro onde te reencontras suspenso a meio caminho de flutuar ou de afundar.

quarta-feira, setembro 12, 2007

Tanto um como outro

Lutas
Contigo
Pela sobrevivência
Pela aniquilação
Por onde caminhas
A direcção que tomas
Se correr se dançar
Por isso danças e corres
Contrarias-te
Anuis-te
Tanto um como outro
Como outro
Como outro
Como outro
Como outro
Como outro

quarta-feira, agosto 22, 2007

terça-feira, agosto 14, 2007

Amo tudo, mas não me incluo

“Nessa época um dos meus sonhos (o meu arsenal de sonhos era infinito) […]”
António Lobo Antunes

Conveniente, fútil arisco, na verdade dócil, um a um, desenlaço cada sonho profundo, pré-imagens do ser, que evaporam, para não mais condensar. Amo tudo, mas não me incluo.

quinta-feira, agosto 09, 2007

quarta-feira, agosto 01, 2007

Afasto-me de mim e de onde estou
E receio rever o que vejo
Reviver o que vivo
O passado e ocorrido
Treme ainda gelado
Na memória presente

Não tem saudades de mim
Só gosta de mim
Não gosta de mim

quarta-feira, abril 11, 2007

De elevador

M. saiu do café onde passara toda a manhã a trabalhar e também a servir cafés, a tudo quanto é gente e também a tudo quanto não é gente. Todos, sem excepção, tiveram o cuidade de no fim pagar a sua conta. Desta vez ninguém fugiu e isso deixou a manhã com aquele travo de monotonia que tende a acumular-se nos cantos das casas, de cor esverdeada e que se atribui erradamente à humidade.
Desceu o degrau da porta do café, que normalmente dá para a rua, mas que agora antecede a porta do elevador de um edifício, presumivelmente do edifício do próprio café. M. não tem outra hipótese senão chamar o elevador. A luz do botão acende-se, previsível. Alguns rangidos e alguns segundos depois ouve o plim que antecede a abertura das portas. Entra no elevador sem alternativa - a porta de onde antes saira está fechada e opaca - e depara com 3 paredes de espelhos. Só existe um botão que M. carrega e que com culpa de algum nervosismo envia para interior (ou para o exterior) do elevador. Ainda assim o cubículo começa a mover-se. Sobe, lenta e constantemente. A viagem prossegue, predefinida e rodeada de um infinito absurdo. Quando finalmente ocorre a M. olhar para cima verifica que o elevador não tem tecto e consegue ver o fim da viagem que lentamente se aproxima. M. deseja que o elevador pare antes de chegar ao tecto atravessado pelos cabos que puxam lentamente o elevador sem tejadilho. Mas não há intenções de abrandamento do ritmo lento. O tecto está já à altura do peito e o chão do elevador continua a subir enquanto as paredes absurdas se dissolvem no tecto áspero. M. senta-se no chão e sem desespero consegue ainda sentir um morno aconchego do cheiro a mofo do canto esverdeado.
O chão esvoaça e M. reencontra-se agora sentado no degrau que dá para a rua a partir da porta do café. Um carro passa e cospe-lhe uma poça de água.

sábado, abril 07, 2007

"A realidade"

"O senhor Henri disse:
... é verdade que se um homem misturar absinto com a realidade fica com uma realidade melhor.
... mas é certo que se um homem misturar absinto com a realidade fica com um absinto pior.
... muito cedo tomei as opções essenciais que há a tomar na vida - disse o senhor Henri.
... nunca misturei o absinto com a realidade para não piorar a qualidade do absinto."
Gonçalo M. Tavares em O Senhor Henri













sexta-feira, abril 06, 2007

sábado, março 17, 2007

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão.
O seu corpo perfeito, linha a linha,
derramava-se no meu, e eu sentia
nele o pulsar do próprio coração.

Moreno, era a forma das pedras e das luas.
Dentro de mim alguma coisa ardia:
a brancura das palavras maduras
ou o medo de perder quem me perdia.

Hoje deitei-me ao lado da minha solidão
e longamente bebi os horizontes.
E longamente fiquei até sentir
o meu sangue jorrar nas próprias fontes.
Eugénio de Andrade

terça-feira, março 13, 2007




"A uniformidade estatística não é de modo algum um ideal científico inócuo, e sim o ideal político, agora já não secreto, de uma sociedade que, inteiramente submersa na rotina do quotidiano, aceita pacificamente a concepção científica inerente à sua própria existência."
Hannah Arendt, A Condição Humana, pp58

quarta-feira, março 07, 2007

Apenas amor

O Tó é bruto
Mas apenas por questões de segurança porque se o não fosse
Para alem de triste, teria consciência da sua tristeza

O Tó é frio
Mas apenas por questões de relacionamento porque se o não fosse
Para além de isolado, teria consciência do seu isolamento

Mas o Tó tem amor
Sem nenhum mas
Nem nenhum apenas
para além do apenas
amor de sussurrar ao ouvido

sábado, março 03, 2007

Ao menos orbitássemos e seria certa a esperança de sair da sombra da vida

domingo, fevereiro 18, 2007

terça-feira, novembro 28, 2006

sexta-feira, novembro 03, 2006

ausência

onde estás tu
xô, VAI-TE AUSENCIA!
onde estás tu?

não desapareces ausência
tu não morres ausência

sempre foi impossível
mas agora vejo que já não
estás dissolvido na água gelada
que cai em lágrimas de ausência
sobre a cidade anónima

molhas-nos ausência
mudas-nos a cor
molhas-me por fora
e enregelas-me por dentro

sexta-feira, outubro 20, 2006

som

Há pouco tempo pediram-me que ouvisse a música de um filme mudo.
Ouçam agora o som destas imagens caladas.

domingo, outubro 08, 2006

Não existe maior confusão

Não existe maior confusão em mim do que as palavras dos pensamentos que se amontoam na espera pela ordem de entrada e as frases e os nacos de frases que sobressaem na sua decomposição rápida e luminescente. Por vezes nem chegam a formar-se palavras. Por vezes são as ideias ou pré-ideias, ideias de ideias, premonições de ideias, adivinhações, sextos sentidos, impressões que se sentem, cheiram, não se vêm ou tocam mas deixam uma marca suficiente para abalar qualquer estrutura que esteja em construção, como uma brisa de tempestade que derruba a construção de um farol.

sexta-feira, outubro 06, 2006

hoje vi-te

hoje vi-te ao longe
entre os ombros, cabeças e pescoços
ondulantes da multidão
sorrias de perfil
vinhas e desaparecias
na multidão
na ondulação
aparecias e ias
na memória errante
histérica incerta
eras tu sim
não eras
era tal e qual sim
não era
de certeza mesmo que sim sim
não
não recordo, não relembro, não ressurge
nariz, lábios, olhos, o sorriso
na névoa sebastianista

domingo, setembro 24, 2006

espiral do desespero triste sem fundamento

Quero chorar, não consigo.
As lágrimas cristalizam nos olhos
Afiadas pedras de sal
arrastam-se lentamente na fronteira de mim
Gotejam escorrem descem até ao peito
onde acumulam
atritam
aziam
irritam
Onde renascem
em vapores de cebola infértil
que cristalizam, precipitam
Pedras de sal
peneiradas no olhar pelo olhar

quinta-feira, setembro 14, 2006

domingo, setembro 03, 2006

a lembrança do sal

Reparo nos teus olhos cansados
Uma faísca sobressai no olhar habitual
Luz brilhante de um passado recente
Uma lágrima feliz
Uma lágrima presa

Reparo, já com o olhar pesado e cansado
No teu corpo moreno ensardado
Vestígios de um passado recente
Um bronze bonito
Um bronze com termo

Reparo no meu corpo cansado
Na barba comichosa
Na roupa mal cheirosa
No cabelo desgrenhado
Nos olhos areados

Reparo, e solta-se uma lágrima
De uma fonte improvável
Mas constante
Uma lágrima livre
Dos corpos cansados, sujos ou limpos
Uma lágrima que não interessa
Porque não há ninguém
Ninguém existe neste momento
Apenas o brilho
O teu brilho
A transparência
A liquidez eterna que tudo une
E o sal
O tão intenso e distinto sal

terça-feira, agosto 08, 2006

singela forma de não esquecer






















sexta-feira, agosto 04, 2006

horizonte




Haverá algum horizonte onde descansem melhor os olhos do que no alcançado com algum esforço e superação?
Não é uma conquista, pois não se trata de uma batalha com aquela linha imaginária.
O que torna esta linha única é a projecção que se faz da história que se traz às costas no enorme espaço vazio e etéreo que se estende ao infinito, dando-lhe um carácter épico e amplificando todas as emoções e sensações por que se tenha passado.
Todo o enorme espaço vazio é subitamente preenchido pelo que se expande de nós.

segunda-feira, julho 17, 2006

takk por há pouco














viðrar vel til loftárása
ég læt mig líða áfram
í gegnum hausinn
hugsa hálfa leið
afturábaksé sjálfan mig syngja fagnaðarerindið
sem við sömdum saman
við áttum okkur draum
áttum allt
við riðum heimsendi
við riðum leitandi
klifruðum skýjakljúfa
sem síðar sprungu upp
friðurinn úti
ég lek jafnvægi
dett niður
alger þögn
ekkert svar
en það besta sem guð hefur skapað
er nýr dagur














Takk..por há pouco. Apesar das entradas em falso, das cordas partidas, da minha música-cruz-que-carrego-e-hei-de-carregar-sem-saber-bem-porquê (viðrar vel til loftárása) ter começado de forma inesperadamente óbvia, do vídeo que não correu, dos pássaros que não voaram, takk..
Nem palavras nem textos, nem sons nem melodias, nem cores nem cinzentos. Em nada o consigo expor, em nada exposto o consigo ver. A aura de inatingível é a maior fonte de atracção. Puro desafio? Ou fonte do mundo do sonho?

quarta-feira, julho 12, 2006

afago

Brilha uma luz de transparência âmbar
difusa e imprecisa
pela distância, pelo percurso, pela história
suspende-se uma imagem, um contorno

Inspiram-se fundo fraquezas
reforça-se

Equilibra-se em fino cristal
caminha às cegas
onde ninguém acredita ver mal

Hesita um passo

Antecede-se um afago

sexta-feira, julho 07, 2006

A vida secreta das palavras

Nota prévia:
Este cometário é sobre o filme "A vida secreta das palavras". Lê-lo pode ser desagradável para quem ainda não o viu e pretenda ver...Que cada um prossiga avisado e a seu próprio risco.

“Receio que não hoje, não amanhã, mas um dia, comece a chorar e não consiga parar.
Receio que não me consiga conter, encha o quarto até acima de lágrimas e me afogue, afundando-te comigo
”

Conseguirás imaginar tal dor - dor mesmo, aguda, lancinante, prolongada, profunda e comprida - que por sobrevivida por um limiar tão pequeno é causa de vergonha. E conseguirás imaginar que a vergonha de ter sobrevivido seja maior que a lembrança da dor.
Como viver com a dor da memória e a dor da vergonha de não ter sofrido até ao fim como os puros fizeram, os que realmente sofreram na pele e na alma as amarguras da dor e do amor.
Haverá comparação? Será legitimo comparar?

Este filme é dedicado ao trabalho de acompanhamento de vítimas de tortura.

Encontrei um paralelismo nas duas personagens principais. Mas enquanto uma sofre no rescaldo da sobrevivência a actos bárbaros de tortura, a outra sofre porque por amor, por adultério, desencadeou uma tragédia que não conseguiu evitar e da qual apenas saiu ferido, queimado e temporariamente cego.

Pergunto-me se o romantismo humano levado ao seu extremo, à tragédia, é comparável com a tragédia humana, a guerra, a tortura.

O que sente nas vísceras o homem que acredita ser, e é, o causador da auto-imolação do seu melhor amigo? Uma dor cáustica, ininterrupta e inebriante. Sente lágrimas ácidas escorrerem para dentro, secas, queimando qualquer resquício de humanidade que ainda exista.
O que sente a mulher violada, esfaqueada e torturada no limiar da sobrevivência, despida da condição humana, despida de sentidos – de audição, de sabor, de tacto – renegada e destinada ao esquecimento global, ao esquecimento de si própria, à morte em vida de si própria.

Em Portugal não temos guerra. E se tivéssemos? Como seria? Esta jovem também não acreditava, no topo dos seus 20 anos, que as noticias circulantes fossem verdadeiras. Afinal estas coisas apenas acontecem aos outros. Mas foi bem perto de casa, no retorno a casa que o impossível aconteceu.
Não há impossíveis. O Homem é um ser com tanto de belo como de horrível. Romântico e hediondo. Violador e arrependido (“perdoa-me, perdoa-me” murmuravam eles ao seu ouvido).
O monstruoso é que Homens somos todos nós, homens e mulheres, românticos hediondos.