
descobre o topo da vista desarmada. ansiosa chegada, repetida partida. descobre o topo da partida e da chegada. grossa caminhada, profunda perdição.
segunda-feira, janeiro 24, 2011
segunda-feira, janeiro 17, 2011
domingo, junho 20, 2010
A minha janela
A porta foi à sua vida
e a janela está aberta
No espaço, nada se move
Nada me encontra.
Nenhuma alternativa se impõe
no entanto existe um fluxo
onde me transporto.
Comigo a janela,
sempre
oca.
E a sua paisagem
frescura
uma promessa
uma passagem
e a janela está aberta
No espaço, nada se move
Nada me encontra.
Nenhuma alternativa se impõe
no entanto existe um fluxo
onde me transporto.
Comigo a janela,
sempre
oca.
E a sua paisagem
frescura
uma promessa
uma passagem
domingo, junho 13, 2010
Ela caminha por novas ruas
Ela caminha por ruas novas, mas a memória está inebriada por conhecimentos quotidianos. A forma ágil de se movimentar pretende fazer crer que na verdade não há nada de novo. Ou que a novidade não é nada com que se necessite preocupar, por ser mundana, corriqueira. Tudo em volta é novo, mas dentro dos seus olhos tudo é ainda quotidiano. O percurso é aberto, pela segunda vez, com golpes afiados de confiança e arrogância. Mais uma curva e já está. Eis a curva. Uma inclinação inusitada começa por levantar suspeitas, mas não! Não há ali enganos… Até que tudo pára. E sim. Há um engano. Ela volta-se para trás e confirma que virou no sítio errado. Na verdade está agora num sítio ainda mais novo, e inexplorado, que poderia passar assim a fazer parte do seu território. No entanto este inesperado desmorona o castelinho de segurança e revela o fundamental, o facto de ser ter enganado, de os passos determinados, dançantes, terem sido abruptamente interrompidos, como uma agulha que se arrasta no disco que gira. Há uma fragilidade que se expõe.
Ela sabe que o novo caminho não é quotidiano. Sabe que há escadas por onde não subiu e ruas que não desceu. Faz parte da sua estratégia ter esses becos, ruelas, travessas e avenidas por perto, em linha de vista do emaranhado dos percursos quotidianos. Bem como cidades inteiras, pessoas inteiras, profissões inteiras que cabem nessa folga que ela reserva quotidianamente. Uma reserva de segurança, uma reserva de esperança. A sua sobrevivência quotidiana alimenta-se dessa reserva secreta de esperança. Mas infelizmente, a verdade é secreta apenas antes de ser falsa.
Ela sabe que o novo caminho não é quotidiano. Sabe que há escadas por onde não subiu e ruas que não desceu. Faz parte da sua estratégia ter esses becos, ruelas, travessas e avenidas por perto, em linha de vista do emaranhado dos percursos quotidianos. Bem como cidades inteiras, pessoas inteiras, profissões inteiras que cabem nessa folga que ela reserva quotidianamente. Uma reserva de segurança, uma reserva de esperança. A sua sobrevivência quotidiana alimenta-se dessa reserva secreta de esperança. Mas infelizmente, a verdade é secreta apenas antes de ser falsa.
quinta-feira, abril 22, 2010
Rufus
A mesa longa cimentava o ambiente morno de respeitinho contente. Lá fora o jardim ilumina-se frugalmente e projectava pequenos pontos de luz e manchas de reflexos complexos na larga janela de correr. Um olhar complicado podia demorar-se ali. Havia uma fresta para que nada fosse definitivo. No entanto o ar fresco e talvez perfumado que por ali entrava não tinha hipótese face à soma das fragrâncias que as individualidades exalavam.
A soma de todos os sons, se interpretado como uma linguagem desconhecida, era igual a zero. No entanto a organização reservara uma surpresa. A janela abriu-se mais um pouco, sem pressas, e um vulto mais a sua guitarra entraram. Reconheci-o logo, era o Rufus Wainwright que logo ali começou a cantar e a expor-se, frágil a olhar aquela mesa compacta, fechada em círculo. Não resisti e aplaudi-o com entusiasmo. Aplaudi e sorri aquele sorriso sem pressa, o melhor de todos. Não sei quanto tempo depois apercebi-me ser o único a aplaudir, mas para além de ser o único a aplaudir, ninguém olhava escandalizado, incrédulo ou interrogativo, nem para mim, nem para o Rufus. A soma dos sons provenientes da mesa continuava a dar zero.
A soma de todos os sons, se interpretado como uma linguagem desconhecida, era igual a zero. No entanto a organização reservara uma surpresa. A janela abriu-se mais um pouco, sem pressas, e um vulto mais a sua guitarra entraram. Reconheci-o logo, era o Rufus Wainwright que logo ali começou a cantar e a expor-se, frágil a olhar aquela mesa compacta, fechada em círculo. Não resisti e aplaudi-o com entusiasmo. Aplaudi e sorri aquele sorriso sem pressa, o melhor de todos. Não sei quanto tempo depois apercebi-me ser o único a aplaudir, mas para além de ser o único a aplaudir, ninguém olhava escandalizado, incrédulo ou interrogativo, nem para mim, nem para o Rufus. A soma dos sons provenientes da mesa continuava a dar zero.
sábado, março 06, 2010
Estranha distância
Dois estranhos estão lado a lado, encostados numa das paredes da sala de concerto. Dois estranhos encontram-se todos os dias no comboio das 8:13. Outros dois estranhos almoçam quase sempre no mesmo café. Com as pessoas estranhas tem-se pouca conversa.
Dois estranhos encontram-se no estrangeiro. Dois estranhos encontram-se no supermercado junto à casa dos primos. Dois estranhos encontram-se casualmente longe do sítio onde a sua estranheza é habitual. Dois estranhos ficam espantados e a estranha distancia de dois estranhos transforma-se em proximidade. De súbito são os dois melhores amigos em quilómetros e quilómetros. Os dois melhores amigos à face da terra, para não ser menos exagerado do que o exagero de dois estranhos que se conhecem agirem como dois estranhos.
Dois estranhos encontram-se no estrangeiro. Dois estranhos encontram-se no supermercado junto à casa dos primos. Dois estranhos encontram-se casualmente longe do sítio onde a sua estranheza é habitual. Dois estranhos ficam espantados e a estranha distancia de dois estranhos transforma-se em proximidade. De súbito são os dois melhores amigos em quilómetros e quilómetros. Os dois melhores amigos à face da terra, para não ser menos exagerado do que o exagero de dois estranhos que se conhecem agirem como dois estranhos.
Do you realize what you lose?
Não tenho dúvida de que é fundamental existir e saber abraçar o "new thinking". Mas também tenho a certeza de que é fundamental saber o que se perde, principalmente quem nunca teve o que perdeu.
"- The other day I was in my doctor’s office, and what do you do in your doctor’s office? Wait. In the past I would be sitting and reading the magazines, I would be looking around the office looking for funny weird stuff and maybe something would strike me as a good story idea. Maybe I would just be looking at other people waiting. Who knows? Instead, I pull up my phone. Suddenly, I’m not looking around me anymore, I’m looking at the screen of my iPhone, and…
- You’re an ambivalent tweeter there Susan. I mean, you’re a star tweeter but you’re an ambivalent tweeter, I can hear it. I mean, David described that exact same thing except standing in line at Starbucks was his example. To him it was nothing but a good thing that he didn’t just have to stand in line in Starbucks, he could be tweeting while standing in line. He had saved that time, he had made productive use of that time. You are enough of an old thinker to realize you lose something when you’re not looking around at the Starbucks that you’re in."
http://www.newyorker.com/online/2010/02/22/100222on_audio_packer
"- The other day I was in my doctor’s office, and what do you do in your doctor’s office? Wait. In the past I would be sitting and reading the magazines, I would be looking around the office looking for funny weird stuff and maybe something would strike me as a good story idea. Maybe I would just be looking at other people waiting. Who knows? Instead, I pull up my phone. Suddenly, I’m not looking around me anymore, I’m looking at the screen of my iPhone, and…
- You’re an ambivalent tweeter there Susan. I mean, you’re a star tweeter but you’re an ambivalent tweeter, I can hear it. I mean, David described that exact same thing except standing in line at Starbucks was his example. To him it was nothing but a good thing that he didn’t just have to stand in line in Starbucks, he could be tweeting while standing in line. He had saved that time, he had made productive use of that time. You are enough of an old thinker to realize you lose something when you’re not looking around at the Starbucks that you’re in."
http://www.newyorker.com/online/2010/02/22/100222on_audio_packer
domingo, fevereiro 28, 2010
A soma
A mesa longa cimentava o ambiente morno de respeitinho contente. Lá fora o jardim ilumina-se frugalmente e projectava pequenos pontos de luz e manchas de reflexos complexos na larga janela de correr. Um olhar complicado podia demorar-se ali. Havia uma fresta para que nada fosse definitivo. No entanto o ar fresco e talvez perfumado que por ali entrava não tinha hipótese face à soma das fragrâncias que as individualidades exalavam.
A soma de todos os sons, se interpretado como uma linguagem desconhecida, era igual a zero. No entanto a organização reservara uma surpresa. A janela abriu-se mais um pouco, sem pressas, e um vulto mais a sua guitarra entraram. Reconheci-o logo, era o Rufus Wainwright que logo ali começou a cantar e a expor-se, frágil a olhar aquela mesa compacta, fechada em círculo. Não resisti e aplaudi-o com entusiasmo. Aplaudi e sorri aquele sorriso sem pressa, o melhor de todos. Não sei quanto tempo depois apercebi-me ser o único a aplaudir, mas para além de ser o único a aplaudir, ninguém olhava escandalizado, incrédulo ou interrogativo, nem para mim, nem para o Rufus. A soma dos sons provenientes da mesa continuava a dar zero.
A soma de todos os sons, se interpretado como uma linguagem desconhecida, era igual a zero. No entanto a organização reservara uma surpresa. A janela abriu-se mais um pouco, sem pressas, e um vulto mais a sua guitarra entraram. Reconheci-o logo, era o Rufus Wainwright que logo ali começou a cantar e a expor-se, frágil a olhar aquela mesa compacta, fechada em círculo. Não resisti e aplaudi-o com entusiasmo. Aplaudi e sorri aquele sorriso sem pressa, o melhor de todos. Não sei quanto tempo depois apercebi-me ser o único a aplaudir, mas para além de ser o único a aplaudir, ninguém olhava escandalizado, incrédulo ou interrogativo, nem para mim, nem para o Rufus. A soma dos sons provenientes da mesa continuava a dar zero.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
sexta-feira, novembro 13, 2009
terça-feira, julho 07, 2009
"Por vezes, quando um cineasta faz planos que excedam a "velocidade" vazia da televisão, imediatamente o classificam de "monótono" ou "repetitivo". Quando a televisão prolonga as suas próprias imagens, sem que isso nem sequer traduza, ao menos, algum ganho informativo, ninguém diz nada..."
João Lopes, aqui http://sound--vision.blogspot.com/
João Lopes, aqui http://sound--vision.blogspot.com/
sábado, julho 04, 2009
segunda-feira, junho 01, 2009
O comboio pára na estação que se segue. Dois brasileiros desconhecidos encontram-se e cumprimentam-se familiarmente. Conhecem-se. Na rua que desço para regressar a casa passo quase à porta de uma porta amiga. Recordo em acto reflexo, como se recordar fosse agir. O comboio pára na estação seguinte. Dois brasileiros despedem-se. Há um que fica e há um que sai. A música continua a tocar no ouvido do que fica. O outro sai a dançar. Dança como anda. Na rua que desço passo à porta das portas desconhecidas. Encontro quem não conheço. A música que toca não me faz dançar. Faz-me marchar. O telefone toca. Tenho de parar o que estou a fazer no computador e falar coisas concretas. Como quem marcha ao som da banda e com as botas completa a música. O comboio pára na estação que se segue. Já nenhum brasileiro dança, nem nenhum brasileiro ouve a música. O olhar triste daquela pessoa que estava a ler reflecte-se na janela escura. Estive a ler e estou cansado. Por isso fico com os olhos cansados. Mas esta pessoa que se reflecte também esteve a ler? A marcha telefónica termina, sem mortos nem feridos graças à prática que assim de mostra útil. Mentiras. De regresso ao computador leio as notícias de que há feridos graves nos comboios que param nas estações. “Olhares cansados reflectidos em janelas escuras ferem três”, leio. Desejo que os comboios não se atrasem. A noite parece ter caído porque todas as janelas escureceram. Debruço-me para ver o caminho, colocar a cabeça de fora, sentir o vento secar os olhos e entrar pela camisola. Mas estas janelas não abrem e vejo o meu reflexo.
domingo, maio 17, 2009
DOM Lisboa
sábado, maio 16, 2009
Antony and the Johnosons no Coliseu de Lisboa...
terça-feira, maio 05, 2009
P.J. Harvey na Casa da Musica
Foi no dia 2 de Maio 2009.
Não resisti a filmar um pedaço deste momento alto...de um concerto já de si elevado.
Taut:
Não resisti a filmar um pedaço deste momento alto...de um concerto já de si elevado.
Taut:
quinta-feira, abril 23, 2009
Reacção
É manhã cedo e o Alfredo decidiu ir de carro para o trabalho. Para além de o regresso a casa depois do jogo de futebol ser muito mais rápido e confortável, estimulava-o a expectativa de usar a nova objectiva fotográfica algures pelo caminho. Voltar a poder capturar os desvios de raciocínio provocados por um olhar, pensamentos absurdos, momentos hiperbólicos e, com sorte, engenho e trabalho, uma linha de tudo isso.
Por azar, nabice ou desleixo, nada de extraordinário ia acontecendo. O acesso à auto-estrada fez-se pelo mesmo caminho de sempre, tal como a fila de trânsito que estava parada no mesmo sítio de sempre e os carros preenchidos com as pessoas anónimas, como sempre. Pelas bermas cresciam ervas, como sempre. Algum lixo dançava ao vento e como sempre acenava aos carros da outra faixa.
Com o carro parado e a janela aberta o olhar deambulava até encontrar um volume no asfalto da outra faixa. Em menos de nada o volume ganhou sentido mas absurdo. Um animal, mas não está completo. O olhar ainda era curioso mas intimidou-se no momento em que distinguiu, pela cor vermelha, a carne viva do animal. Um vermelho obsceno, pujante, que queria viver mas que assim pendurado no escuro do asfalto era absurdo, surreal. Um carro passou em velocidade normal, rápido. O lixo dançava e acenava ao carro que sem vacilar sobrevoou o animal jazido. Outro carro passou e um camião, e o animal parecia na verdade estar vivo, saber o que fazia enquanto apreciava a adrenalina de fintar as rodas lançadas dos carros.
A nova objectiva permanecia sossegada no banco do lado à espera do irrepetível momento rasgado que teimava em não aparecer…
Entretanto, tanto foi o tempo que até a fila se desbloqueou e avançou mais uns passos. Assim que se sentiu na iminência de avançar o Alfredo apercebe-se que não lhe ocorreu fotografar aquele momento verdadeiramente único. Aquela derradeira afirmação da vida sobre a morte, ou aquela qualquer outra interpretação que se lhe quisesse dar. Não lhe ocorrera até aí mas ainda tinha a possibilidade. Como é hábito, a fila pasmou-se pouco mais à frente. Agora era a oportunidade.
Os carros de traz ainda não buzinavam, a distância para os da frente ainda era tolerável. Mas os olhos postos no animal e a imagem das suas entranhas irredutivelmente coloradas de vida impediam o raciocínio e a sensação de abandonar o controlo sobre o corpo. Dúvidas e receios de olhar para o resultado ou de esse resultado ser visto, dúvidas sobre a legitimidade de sequer pensar em fotografar aquela cena dramática impediam o Alfredo de sequer começar a fazê-lo.
Nestas e outras deambulações o Alfredo gastou o tempo todo que tinha e viu-se obrigado a avançar até perder de vista e abandonar o animal.
No regresso a casa, cansado e com muito menos energia, a memória da cena matutina apareceu quando se aproximava do sítio onde deixara o animal. O que é que teria acontecido? Alguém teria parado para o recolher e fazer descansar em chão mais macio? Teria renascido? Ou estaria no mesmo sítio? O Alfredo aproximava-se do local à mesma velocidade que os outros carros enquanto percorria estas possibilidades e tentava saber o que pensava delas. A estrada estava mal iluminada e só a poucos metros reconheceu os restos do que admirara de manhã. O antigo animal estava agora totalmente oprimido no alcatrão, decalcado, cilindrado, espalmado. Estava esticado e escurecido como quem tentou num último esforço inútil contrariar uma força incomensuravelmente superior.
Nestas e outras deambulações o Alfredo gastou o tempo todo que tinha e voou por cima do animal. O farol iluminou a berma com as suas ervas e o lixo acenou.
Por azar, nabice ou desleixo, nada de extraordinário ia acontecendo. O acesso à auto-estrada fez-se pelo mesmo caminho de sempre, tal como a fila de trânsito que estava parada no mesmo sítio de sempre e os carros preenchidos com as pessoas anónimas, como sempre. Pelas bermas cresciam ervas, como sempre. Algum lixo dançava ao vento e como sempre acenava aos carros da outra faixa.
Com o carro parado e a janela aberta o olhar deambulava até encontrar um volume no asfalto da outra faixa. Em menos de nada o volume ganhou sentido mas absurdo. Um animal, mas não está completo. O olhar ainda era curioso mas intimidou-se no momento em que distinguiu, pela cor vermelha, a carne viva do animal. Um vermelho obsceno, pujante, que queria viver mas que assim pendurado no escuro do asfalto era absurdo, surreal. Um carro passou em velocidade normal, rápido. O lixo dançava e acenava ao carro que sem vacilar sobrevoou o animal jazido. Outro carro passou e um camião, e o animal parecia na verdade estar vivo, saber o que fazia enquanto apreciava a adrenalina de fintar as rodas lançadas dos carros.
A nova objectiva permanecia sossegada no banco do lado à espera do irrepetível momento rasgado que teimava em não aparecer…
Entretanto, tanto foi o tempo que até a fila se desbloqueou e avançou mais uns passos. Assim que se sentiu na iminência de avançar o Alfredo apercebe-se que não lhe ocorreu fotografar aquele momento verdadeiramente único. Aquela derradeira afirmação da vida sobre a morte, ou aquela qualquer outra interpretação que se lhe quisesse dar. Não lhe ocorrera até aí mas ainda tinha a possibilidade. Como é hábito, a fila pasmou-se pouco mais à frente. Agora era a oportunidade.
Os carros de traz ainda não buzinavam, a distância para os da frente ainda era tolerável. Mas os olhos postos no animal e a imagem das suas entranhas irredutivelmente coloradas de vida impediam o raciocínio e a sensação de abandonar o controlo sobre o corpo. Dúvidas e receios de olhar para o resultado ou de esse resultado ser visto, dúvidas sobre a legitimidade de sequer pensar em fotografar aquela cena dramática impediam o Alfredo de sequer começar a fazê-lo.
Nestas e outras deambulações o Alfredo gastou o tempo todo que tinha e viu-se obrigado a avançar até perder de vista e abandonar o animal.
No regresso a casa, cansado e com muito menos energia, a memória da cena matutina apareceu quando se aproximava do sítio onde deixara o animal. O que é que teria acontecido? Alguém teria parado para o recolher e fazer descansar em chão mais macio? Teria renascido? Ou estaria no mesmo sítio? O Alfredo aproximava-se do local à mesma velocidade que os outros carros enquanto percorria estas possibilidades e tentava saber o que pensava delas. A estrada estava mal iluminada e só a poucos metros reconheceu os restos do que admirara de manhã. O antigo animal estava agora totalmente oprimido no alcatrão, decalcado, cilindrado, espalmado. Estava esticado e escurecido como quem tentou num último esforço inútil contrariar uma força incomensuravelmente superior.
Nestas e outras deambulações o Alfredo gastou o tempo todo que tinha e voou por cima do animal. O farol iluminou a berma com as suas ervas e o lixo acenou.
sexta-feira, abril 17, 2009
vi
De regresso à confortável companhia do Al, o Alfredo recapitula as sensações intensas do sono recente. Por arrasto, emerge de novo a certeza imprecisa da possibilidade de libertação de uma força reveladora de intensidade inédita.
O Alfredo retoma a programação. O diagrama lógico que levou à imaginação do Al iluminava-lhe permanentemente o raciocínio mas de forma instável, como as sombras sem contornos de uma lâmpada suja. O Al produzia com facilidade mais textos literários, poéticos, raciocínios, músicas, discursos políticos, panfletos, manifestos do que o Alfredo poderia alguma vez consumir. Contudo frustrava-o saber da existência de áreas às quais o Al não iria nunca chegar e a causa era simples. A natureza dessas áreas não dependia da iniciativa do Al. Primeiro teria que entrar em contacto com elas e criar um elo, uma ponte, uma dependência, suportar-se na fragilidade da imprevisibilidade e com cada uma tricotar a rede sonhada.
Reprodução. O Alfredo encontrou assim, finalmente, a forma de expressar o sentimento impreciso que se insinuava. O toque que tudo finalizou aconteceu com a replicação do Al.
Numa reacção em cadeia o Al ganhou escala. Preencheu todos os lugares informáticos vazios e dominou todos os restantes sistemas arcaicos. Começou por dominar toda a blogosfera, a mais permeável. Leu e respondeu a todas as mensagens, refutou os erros e revelou as omissões em todos os blogs, tweets, wikis, fóruns, redes sociais e outras experiencias obscuras que existiam. Nada escapou. Continuou pela imprensa local, nacional, internacional e revelou os resultados incríveis das análises política, económica e social. Conjugou esses resultados com os conceitos flutuantes dos mercados de valores mobiliários e deduziu as fórmulas de cálculo da sua evolução. O Al impunha-se em todos os pontos com que tinha contacto, desde interceptar e intervir nas conversas telefónicas para corrigir o que estivesse errado até alterar subversivamente as decisões políticas com que discordava por obviamente estarem erradas. Em poucas horas, qualquer esforço para produzir material intelectual original era inútil. Já tudo estava escrito, disponível e ultrapassado.
Pasmado, o Alfredo observou esta avalanche. Torrente esquisita de clarividência misturada com o desespero da impotência e mediocridade que afogou por completo a iniciativa humana. Nada mais podia fazer agora. A alegria e a euforia inicial davam lugar a um pânico desesperado. O sonho da modelação saíra fora de controlo, ou melhor, do seu controlo. O controlo absoluto pertencia ao Al. O desânimo era total.
O Alfredo retoma a programação. O diagrama lógico que levou à imaginação do Al iluminava-lhe permanentemente o raciocínio mas de forma instável, como as sombras sem contornos de uma lâmpada suja. O Al produzia com facilidade mais textos literários, poéticos, raciocínios, músicas, discursos políticos, panfletos, manifestos do que o Alfredo poderia alguma vez consumir. Contudo frustrava-o saber da existência de áreas às quais o Al não iria nunca chegar e a causa era simples. A natureza dessas áreas não dependia da iniciativa do Al. Primeiro teria que entrar em contacto com elas e criar um elo, uma ponte, uma dependência, suportar-se na fragilidade da imprevisibilidade e com cada uma tricotar a rede sonhada.
Reprodução. O Alfredo encontrou assim, finalmente, a forma de expressar o sentimento impreciso que se insinuava. O toque que tudo finalizou aconteceu com a replicação do Al.
Numa reacção em cadeia o Al ganhou escala. Preencheu todos os lugares informáticos vazios e dominou todos os restantes sistemas arcaicos. Começou por dominar toda a blogosfera, a mais permeável. Leu e respondeu a todas as mensagens, refutou os erros e revelou as omissões em todos os blogs, tweets, wikis, fóruns, redes sociais e outras experiencias obscuras que existiam. Nada escapou. Continuou pela imprensa local, nacional, internacional e revelou os resultados incríveis das análises política, económica e social. Conjugou esses resultados com os conceitos flutuantes dos mercados de valores mobiliários e deduziu as fórmulas de cálculo da sua evolução. O Al impunha-se em todos os pontos com que tinha contacto, desde interceptar e intervir nas conversas telefónicas para corrigir o que estivesse errado até alterar subversivamente as decisões políticas com que discordava por obviamente estarem erradas. Em poucas horas, qualquer esforço para produzir material intelectual original era inútil. Já tudo estava escrito, disponível e ultrapassado.
Pasmado, o Alfredo observou esta avalanche. Torrente esquisita de clarividência misturada com o desespero da impotência e mediocridade que afogou por completo a iniciativa humana. Nada mais podia fazer agora. A alegria e a euforia inicial davam lugar a um pânico desesperado. O sonho da modelação saíra fora de controlo, ou melhor, do seu controlo. O controlo absoluto pertencia ao Al. O desânimo era total.
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