quarta-feira, maio 31, 2006

Murmura menos o mar se me afasto?
Reflecte menos o luar?
Embala menos as barcaças e o olhar?

Não depende da distância, da frequência nem da presença.

segunda-feira, maio 15, 2006

Mas estamos salvos

Só encontro paz neste silêncio, que o pensamento quebra.

sábado, maio 06, 2006

Territórios imaginados – discorrência inacabada

Território, substantivo masculino, grande extensão de terra, área de uma jurisdição.
Imaginar, verbo transitivo, representar ou conceber na imaginação, idear, conjecturar, supor.

Um território é um espaço, à primeira vista delimitado por uma fronteira, cujos contornos obedecem a alguma lógica, que constitui a jurisdição. Sendo também possível imaginar definições territoriais sem as delimitações habitualmente utilizadas (por exemplo, o território planeta Plutão não está, ainda, loteado nem dividido administrativamente), acaba por ser fácil, por aumento de escala do objecto delimitador, definir novas fronteiras (o planeta é delimitado pela sua atmosfera).

A fronteira não é portanto uma característica necessária à existência de um território.

Por outro lado, na dimensão, o grande e o pequeno são medidas qualitativas e relativas, dependentes da comparação com elementos conhecidos, que por sua vez estão catalogados por comparação com outros elementos conhecidos.

Torna-se difícil encontrar uma definição ou ideia do significado de um território.

Sobressai apenas a imagem de um espaço onde alguma característica comum determina a sua coerência e a sua união.

A imaginação, individual ou colectiva, como catalisadora do processo criativo, determina a quantidade e a qualidade dos territórios concebidos. Desde o espaço público, constituído, por exemplo, pelas características comuns da sua utilização ou arquitectura, ao espaço privado, individual e unívoco, território das convicções.

sexta-feira, abril 21, 2006

O repouso

Ainda acordado
sonho com a tua proximidade
com a tua respiração e assim me fico
a saborear cada sopro do teu repouso

domingo, abril 16, 2006

O instante sonhado

Pressinto o presente
Ou ignoro-o.
O sobressalto ocorre
No preciso momento inesperado
De solidão, ou de confusão.
Numa breve rotação
Na conclusão de um foco.

Momento instante
Instante.
Instante de quê
Instante de dor
Instante de quês
Instante de sins, de nãos
Instante de certeza
De certeza instante
Apenas

E tanto por vir
No instante adiado
Nos presentes sonhados.

terça-feira, abril 04, 2006

O espaço publico

"A não existência de um espaço anónimo de devir das ideias e das obras retira, além do poder de criação, o dispositivo necessário (a mediação) que dessubjectiva o discurso e impede o choque dos «sujeitos»."
José Gil in Portugal, hoje-O medo de existir

Pois bem. O espaço público que não se pretende, assim tão bem sumariado, sufoca-me constantemente na sua omnipresença predadora.
São as relações historicamente enquinadas, encostadas na berma do trilho que percorriam. São os frágeis elos de aço da economia empresarial gerida pelo maniqueísmo hierárquico socio-apaziguado no sabor de um café.

Não existe consistência no espaço que constitui o meio de relacionamento interpessoal. Não existe colectivo no sentido da soma de individualidades em conjunto com a goma que as una e lhes dê um significado ou uma interpretação maior. Essa interpretação não existe por si, nem poderia existir por si, isolada, sem que alguém a corporizasse. Pois neste cenário falta também este alguém ou essa entidade.

São as expectativas galopantes a desbravar caminho, apesar de o sábio as desaconselhar a quem procura a liberdade. Mas cada vez mais creio que se referia à liberdade pessoal, individualizada, ao fruto de um caminho iniciado em sociedade.

Serei eu mais eu quando me sentir a mim em mim? Quando for livre, não no sentido de poder dizer e pensar o que me apetecer, mas no sentido de não ter nenhuma barreira maquiavélica a orientar o meu raciocínio, a personalidade, a acção?
Sim. Esse é um objectivo que não deveria ser enunciado, mas inato, invariável. E apenas uma comunidade pode propiciar tais condições. Uma sociedade de libertos comunicantes, uma comunidade caldeirão.

Pensem, e atirem-me pedras!

domingo, março 26, 2006

Repouso

Finalmente o descanso, e a certeza da vitória do peso das pálpebras sobre o encarrilamento do raciocínio. Já o mundo está desfocado de sono e as palavras colam-se numa só. Acumulam o seu peso com o do corpo encaixado no molde formado pela sua existência em repouso.

segunda-feira, março 20, 2006

A semente dos sonhos

Preparas o descanso, respiras fundo e antecipas o conforto da noite.
E no silencio, na imobilidade do ar, um breve sussurro imperceptivel aloja-se na semente dos sonhos e aguarda pacientemente que adormeças.
Só então te invade, como o faz um perfume.

Despertar

Estava afundado, naquela profundidade que os raios de sol ainda conseguem conquistar, há custa da sua dispersão, que tem tanto de aleatória como de enigmática como de premonitória.

E quando emergi, para respirar o sal da brisa marinha, fui acarinhado por uma gaivota que em silencio me reconheceu, em silencio me protegeu, em silencio me revelou e desvendou, com um breve olhar de soslaio e um morno afago de asa.

“…e então tu olhaste/ depois sorriste/ abriste a janela e voaste..”

quarta-feira, março 08, 2006

Amanhecer

Descubro a janela do seu véu nocturnal.
Semi-cobertos pelo trilho do sono, os olhos percorrem os telhados irregulares, os horizontes assimétricos.
Desvendo o ar do Porto da sua janela, fronteira finalmente quebrada.

O fino ar frio percorre ansioso, da cabeça aos pés, cada pedaço do corpo. Enche o quarto e afoga o ar tépido do singular calor humano.
Desperta os sentidos e contagia a mente...

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Ninho

No calor do único ninho físico percorro a segurança dos ninhos emocionais. As suas levezas flutuam em esferas, comunicantes mas protectoras do exterior agressor, opressor. No ninho real recordo a esperança na continuidade da flutuação de cada bolha de segurança, de salvação.

segunda-feira, janeiro 01, 1990

"Com as palavras todo o cuidado é pouco, mudam de opinião como as pessoas."
José Saramago in As intermitências da morte