descobre o topo da vista desarmada. ansiosa chegada, repetida partida. descobre o topo da partida e da chegada. grossa caminhada, profunda perdição.
quinta-feira, fevereiro 02, 2012
Encosto
ou acocorado na parede
É igual, mesmo
Que me vejas no centro
Que me mates no centro
É no encosto do canto que morro.
quarta-feira, maio 04, 2011
Entra frio pelos olhos que seca por dentro a vista molhada
Tenho péssima memória e disso tenho pena. Tenho pena de não conseguir fixar o que por vezes vejo tão nitidamente e toca o nervo que lacrimeja o olhar. Não sei o que chega primeiro, se a lágrima anunciada ou a franqueza do olhar. Não importa. Por vezes dói, apenas olhar, dói tanto como alegra. Dói por amar. Amar dói sempre, porque nada lhe é suficiente. Quando o olhar está sintonizado para amar, tudo dá pancada. A criança no autocarro, os acidentados que conversam, a velha emigrante na janela do comboio. Tudo dói, magoa, arrepia com a força da rajada gelada na noite escura. Tudo dói quando se ama e talvez por isso seja mais fácil não amar, ignorar. Talvez por isso a memória seja má, para não lembrar. Mas há momentos sem alternativa. Como agora. Infeliz quem ama assim, condenado a encaixar a violência de quem se escapa à dor.
Hoje, por agora, estou sem poder olhar para nada nem para ninguém. Hoje é dia de vertigem para o olhar de quem passa. Não se escolhem esses dias, essas horas. Acontecem. Talvez um dia os consiga controlar. Talvez nesse dia me sinta tentado a impedi-los de me magoar e me torne mais um que aprende a fugir. De facto, assim é quase demais. Tanto que perde algum sentido, tornando tudo mais verdadeiro. Um dia aprendo a fugir e serei feliz, permanente desencontrado e esquecido.
terça-feira, maio 03, 2011
Betão
Eram máquinas que ao longe rasgavam o chão
e o espaço amplo que criavam forravam de betão.
Ao longe ficaram,
tempo suficiente para não lhes sentir a diferença do estar parado
do movimento. Quer dizer
que ambos aconteciam e não se anulavam. Devagarinho,
devagarinho o barulho crescia um poucochinho.
Tal que a paisagem nem nunca mudou! tal como as estações também não a mudam.
Porque as estações são um caminho com retorno. Um sair e voltar a casa
para ter vontade de sair.
Já o betão não, não tem retorno. Não tem entrada, não tem saída. É o forro da solidão.
Sem querer, sem saber, sem querer saber, encontrei-me no meu posto rodeado de máquinas que rasgam o chão e me forram de betão.
quinta-feira, março 17, 2011
domingo, março 13, 2011
Semáforo
E até quando ficar aqui parado? Arrancar. Prosseguir. Mas quando?
Agora? Daqui a 10, 20, 50 segundos?
É assustadora a arbitrariedade da decisão de avançar sobre o vermelho que nunca cai. Porque é óbvio que tudo será diferente consoante o arranque seja agora… ou agora… ou agora…
Arranquei, passei quando não era suposto ter passado. Qualquer ordem ou lógica que pudesse estar estabelecida de acordo com as nossas regras ficou estilhaçada. Como não recear pela pessoa que se aproxima da passadeira ou do vagabundo no miradouro? Como não questionar e desconfiar da razão das coisas até soltar as amarras dos sentidos?
quinta-feira, fevereiro 24, 2011
segunda-feira, janeiro 24, 2011
segunda-feira, janeiro 17, 2011
domingo, junho 20, 2010
A minha janela
e a janela está aberta
No espaço, nada se move
Nada me encontra.
Nenhuma alternativa se impõe
no entanto existe um fluxo
onde me transporto.
Comigo a janela,
sempre
oca.
E a sua paisagem
frescura
uma promessa
uma passagem
domingo, junho 13, 2010
Ela caminha por novas ruas
Ela sabe que o novo caminho não é quotidiano. Sabe que há escadas por onde não subiu e ruas que não desceu. Faz parte da sua estratégia ter esses becos, ruelas, travessas e avenidas por perto, em linha de vista do emaranhado dos percursos quotidianos. Bem como cidades inteiras, pessoas inteiras, profissões inteiras que cabem nessa folga que ela reserva quotidianamente. Uma reserva de segurança, uma reserva de esperança. A sua sobrevivência quotidiana alimenta-se dessa reserva secreta de esperança. Mas infelizmente, a verdade é secreta apenas antes de ser falsa.
quinta-feira, abril 22, 2010
Rufus
A soma de todos os sons, se interpretado como uma linguagem desconhecida, era igual a zero. No entanto a organização reservara uma surpresa. A janela abriu-se mais um pouco, sem pressas, e um vulto mais a sua guitarra entraram. Reconheci-o logo, era o Rufus Wainwright que logo ali começou a cantar e a expor-se, frágil a olhar aquela mesa compacta, fechada em círculo. Não resisti e aplaudi-o com entusiasmo. Aplaudi e sorri aquele sorriso sem pressa, o melhor de todos. Não sei quanto tempo depois apercebi-me ser o único a aplaudir, mas para além de ser o único a aplaudir, ninguém olhava escandalizado, incrédulo ou interrogativo, nem para mim, nem para o Rufus. A soma dos sons provenientes da mesa continuava a dar zero.
sábado, março 06, 2010
Estranha distância
Dois estranhos encontram-se no estrangeiro. Dois estranhos encontram-se no supermercado junto à casa dos primos. Dois estranhos encontram-se casualmente longe do sítio onde a sua estranheza é habitual. Dois estranhos ficam espantados e a estranha distancia de dois estranhos transforma-se em proximidade. De súbito são os dois melhores amigos em quilómetros e quilómetros. Os dois melhores amigos à face da terra, para não ser menos exagerado do que o exagero de dois estranhos que se conhecem agirem como dois estranhos.
Do you realize what you lose?
"- The other day I was in my doctor’s office, and what do you do in your doctor’s office? Wait. In the past I would be sitting and reading the magazines, I would be looking around the office looking for funny weird stuff and maybe something would strike me as a good story idea. Maybe I would just be looking at other people waiting. Who knows? Instead, I pull up my phone. Suddenly, I’m not looking around me anymore, I’m looking at the screen of my iPhone, and…
- You’re an ambivalent tweeter there Susan. I mean, you’re a star tweeter but you’re an ambivalent tweeter, I can hear it. I mean, David described that exact same thing except standing in line at Starbucks was his example. To him it was nothing but a good thing that he didn’t just have to stand in line in Starbucks, he could be tweeting while standing in line. He had saved that time, he had made productive use of that time. You are enough of an old thinker to realize you lose something when you’re not looking around at the Starbucks that you’re in."
http://www.newyorker.com/online/2010/02/22/100222on_audio_packer
domingo, fevereiro 28, 2010
A soma
A soma de todos os sons, se interpretado como uma linguagem desconhecida, era igual a zero. No entanto a organização reservara uma surpresa. A janela abriu-se mais um pouco, sem pressas, e um vulto mais a sua guitarra entraram. Reconheci-o logo, era o Rufus Wainwright que logo ali começou a cantar e a expor-se, frágil a olhar aquela mesa compacta, fechada em círculo. Não resisti e aplaudi-o com entusiasmo. Aplaudi e sorri aquele sorriso sem pressa, o melhor de todos. Não sei quanto tempo depois apercebi-me ser o único a aplaudir, mas para além de ser o único a aplaudir, ninguém olhava escandalizado, incrédulo ou interrogativo, nem para mim, nem para o Rufus. A soma dos sons provenientes da mesa continuava a dar zero.
sexta-feira, janeiro 08, 2010
sexta-feira, novembro 13, 2009
terça-feira, julho 07, 2009
João Lopes, aqui http://sound--vision.blogspot.com/
